O Grande Colisor de Hádrons (LHC), maior acelerador de partículas do mundo, pode ter registrado indícios da presença de matéria escura sem nem precisar de novos equipamentos para isso. É o que sugere um estudo conduzido pelos físicos Xunyu Liang e Ariel Zhitnitsky, da Universidade de Colúmbia Britânica, no Canadá, cujo artigo foi aceito para publicação na revista científica Physical Review D.
O mistério das falhas apelidadas de "UFOs"
A pesquisa parte de um fenômeno intrigante observado no funcionamento da máquina: pequenas perdas repentinas no feixe de prótons, causadas por minúsculos grãos de poeira dentro do acelerador. Os cientistas batizaram essas ocorrências de "UFOs" — sigla em inglês para objetos voadores não identificados — e, até então, o que fazia essa poeira se soltar dentro de uma estrutura de precisão tão extrema seguia sendo um enigma.
Pepitas de matéria escura como possível explicação
De acordo com os pesquisadores, a resposta pode estar em uma forma hipotética de matéria escura conhecida como pepitas de quarks áxions (ou AQNs, na sigla em inglês). Diferentemente das partículas subatômicas tradicionalmente buscadas pela física, essas pepitas seriam objetos macroscópicos e densos, com massa variando entre cinco gramas e um quilo.
A hipótese é que, ao atravessar o subsolo a até 100 quilômetros de distância do laboratório, uma dessas pepitas geraria uma pequena onda de choque acústica capaz de fazer o LHC vibrar sutilmente — de forma parecida com o que aconteceria a um relógio de altíssima precisão perturbado por uma vibração externa vinda de longe.
Uma pausa longa, mas o legado do LHC segue rendendo descobertas
A descoberta ganha ainda mais relevância pelo momento em que chega: o CERN encerrou a última rodada de física do LHC em 29 de junho de 2026, dando início a uma pausa de manutenção batizada de Long Shutdown 3 (LS3), com duração prevista de cerca de quatro anos. Durante esse período, engenheiros vão transformar o equipamento na versão de alta luminosidade, conhecida como HiLumi LHC, capaz de gerar um volume ainda maior de colisões entre partículas quando as operações forem retomadas, previstas para 2030.
Mesmo fora de operação, os dados já coletados pelo LHC ao longo de anos de funcionamento continuam sendo analisados por cientistas ao redor do mundo — e, como mostra esse novo estudo, ainda têm potencial para revelar pistas sobre um dos maiores mistérios do universo: a natureza da matéria escura.