Doze anos depois do Google apagar os servidores do Orkut, uma leva de projetos independentes decidiu ressuscitar — cada um à sua maneira — aquela sensação de logar numa rede cheia de depoimentos, comunidades bizarras e aquele "quem visitou meu perfil". Nenhum deles tem qualquer vínculo oficial com o Google ou com a marca original, mas todos apostam na mesma fórmula: pegar o esqueleto do Orkut clássico e tentar fazer a saudade valer a pena. Fomos conferir quatro desses projetos.
Orkutis:
Esse é um dos mais recentes criados, o Orkutis chama atenção antes mesmo do cadastro terminar. Logo na tela inicial, o site já avisa que é "um fã site independente inspirado no antigo Orkut", sem vínculo com Google ou Orkut oficial, e que a operação é feita pela empresa Poosting Rede Social Ltda. O visual usa o roxo característico da marca antiga e o slogan "conecte. compartilhe. pertença." já entrega a proposta.
O que salta aos olhos é o tanto de burocracia embutida no cadastro: é preciso ter 18 anos ou mais, enviar uma foto de perfil (que passa por análise antes de ser aceita) e passar por uma verificação de segurança. Os Termos de Uso e a Política de Privacidade são longos e detalhados, citando LGPD e até o GDPR europeu, com cláusulas específicas sobre proteção de menores, moderação de conteúdo e retenção de dados. É, na prática, o clone que mais se parece com uma empresa de verdade tentando se blindar juridicamente — o que também acaba deixando a experiência menos "artesanal" e mais parecida com o cadastro de qualquer rede social corporativa atual.
Urkut:
O Urkut aposta numa fórmula parecida, mas com uma pegada mais internacional: a página de login já mostra quantas pessoas estão online naquele momento (mais de 3 mil, segundo o próprio site) e convida o visitante a "conectar-se com amigos e família usando recados e mensagens instantâneas" — um resumo quase didático do que o Orkut original oferecia. O rodapé deixa claro, em inglês, que o site não tem afiliação com Google ou Orkut.com e que é "um projeto independente feito por fãs para reviver a nostalgia".
Chama atenção a quantidade de idiomas disponíveis logo na tela de entrada — português, inglês e até hindi —, sinal de que o projeto mira um público bem mais amplo do que só o Brasil. A estrutura de cookies e preferências de privacidade também é mais robusta que a de um site amador, separando cookies necessários, estatísticos e de marketing, algo que lembra mais um site europeu regulado por GDPR do que uma comunidade nostálgica feita por hobby.
Orkuti:
Já o Orkuti aposta todas as fichas no visual: a tela de login roda um vídeo de fundo e toca até um som de notificação, tentando recriar a atmosfera "barulhenta" da internet dos anos 2000. O próprio site se descreve nas meta tags como "uma nova rede social melhorada e sem interferência de algoritmos" — uma alfinetada nada sutil nas redes atuais movidas a feed algorítmico.
O cadastro pede até o gênero do usuário (feminino ou masculino) logo de cara, e há a opção de entrar direto com login social do Google. Curiosamente, o rodapé do Orkuti hospeda também comunidades sobre o próprio universo desses clones — inclusive uma "Angiru Oficial" e uma "Angiru Forever Oficial" — sugerindo que existe uma comunidade de fãs migrando entre esses diferentes projetos e comparando notas sobre qual reproduz melhor a experiência original.
Angiru:
E aí chegamos ao que, de fato, eu achei o mais parecido com o Orkut antigo. O Angiru é uma rede social independente criada no Paraguai, que reproduz elementos marcantes da antiga plataforma do Google, como perfis, comunidades, lista de amigos, álbuns de fotos e depoimentos. Diferente do que muita gente pensou quando o projeto viralizou recentemente no Brasil, ele não é novidade: foi desenvolvido pela empresa paraguaia Softwarani E.A.S. e já estava no ar desde pelo menos março de 2022, bem antes da atual onda de nostalgia.
O nome já entrega a que veio: "Angiru" vem do guarani, formado pela junção de "anga" (alma) com "iru" (irmão), e significa "amigo" — uma escolha e tanto para uma rede que se apoia justamente na ideia de amizade e comunidade. E é exatamente aí que mora a semelhança mais forte com o Orkut original: em vez de organizar tudo em torno de um feed cronológico ou algorítmico, como fazem Instagram, Facebook e companhia hoje em dia, o Angiru estrutura a experiência em torno de perfis, amizades e comunidades, do jeito que a rede do Google funcionava entre 2004 e 2014.
| Imagem Imaginativa |
Vale reforçar que é tudo começar do zero: a proposta não recupera as antigas contas do Orkut, então quem quiser experimentar o serviço precisa criar um novo perfil e reconstruir sua rede de contatos do absoluto zero. Não existe importação de amigos, fotos ou comunidades da era Google — é como entrar na internet pela primeira vez outra vez.
Um detalhe curioso é que, mesmo sendo estrangeiro, o site já nasceu de olho no público brasileiro: funciona direto pelo navegador, tem opção de idioma em português e o cadastro é feito dentro da própria plataforma, sem precisar instalar nenhum aplicativo. É esse cuidado com a localização — somado à fidelidade ao conceito de "rede social sem feed, cheia de comunidade e depoimento" — que faz o Angiru soar mais autêntico do que os concorrentes citados acima, que em geral apostam mais em replicar o visual do que a lógica de funcionamento da plataforma original.
No fim das contas, nenhum desses projetos consegue (nem promete) devolver o Orkut exatamente como ele era, com as fotos, os amigos e as comunidades de quinze anos atrás. Mas, entre reconstruir uma comunidade do zero num site paraguaio ou preencher um formulário burocrático num clone qualquer, dá pra entender por que o Angiru tem sido o queridinho de quem realmente quer sentir de novo aquele gostinho de logar, ver quem visitou o perfil e escrever um depoimento pra um amigo.