Quem lembra né, o Facebook, rede que definiu a cultura digital dos anos 2010, hoje é retrato de uma geração que já não é a sua. Pesquisas recentes mostram um esvaziamento continuado da plataforma entre adolescentes e jovens adultos, um processo que já dura mais de uma década e não dá sinais de reversão.
Os números
Segundo o Pew Research Center, o uso do Facebook entre adolescentes americanos (13 a 17 anos) despencou de 71% em 2014-15 para cerca de 31-32% em 2025 — uma queda de mais da metade em dez anos. O declínio é ainda mais evidente quando se olha para o uso diário: hoje apenas 20% dos adolescentes acessam o Facebook todos os dias, um número muito abaixo do YouTube (73%) e do TikTok, que concentram a atenção diária da geração mais jovem. Entre as grandes redes pesquisadas, Facebook e X (antigo Twitter) são as únicas que perderam adesão ano após ano, enquanto YouTube, TikTok, Instagram e WhatsApp seguem crescendo ou se mantendo estáveis.
"Rede dos avós"
O motivo mais citado por especialistas e pelos próprios jovens é simbólico antes de ser técnico: o Facebook envelheceu junto com seu público original. A mesma geração que criou a rede nos campi universitários no fim dos anos 2000 hoje está na casa dos 30, 40 anos — e trouxe consigo pais, tios e avós. Para quem nasceu depois de 2005, o Facebook deixou de ser espaço de socialização entre pares e virou, na prática, um canal de comunicação familiar. Não é incomum ouvir de adolescentes que só mantêm perfil na plataforma "para falar com os avós".
Esse deslocamento gera um efeito em cascata: se os amigos não estão lá, não há razão social para permanecer. Redes sociais dependem de efeito de rede — e quando os pares migram, a plataforma perde sua função primária de conexão entre iguais.
Formato
Além do fator geracional, há uma questão de formato. O Facebook nasceu em torno do feed de texto, links e fotos — um modelo que perdeu espaço para o vídeo curto e vertical popularizado pelo TikTok e depois copiado por Instagram (Reels) e YouTube (Shorts). Os dados do Pew mostram que TikTok e Instagram são hoje usados por cerca de seis em cada dez adolescentes, com parcela relevante dizendo estar "quase constantemente" conectada a essas plataformas — um padrão de consumo que o Facebook não consegue mais capturar.
Novos hábitos, novos concorrentes
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O tempo de atenção dos jovens também está sendo disputado por atores que nem existiam quando o Facebook foi criado. Pesquisa mais recente do Pew (2025) mostra que cerca de dois terços dos adolescentes já usam chatbots de inteligência artificial, como ChatGPT, e quase um terço faz isso diariamente — um sinal de que o tempo de tela está sendo redistribuído para experiências mais interativas e personalizadas, não apenas para outras redes sociais.
O WhatsApp é outro caso interessante: seu uso entre adolescentes subiu de 17% em 2022 para cerca de um quarto hoje, mostrando que a comunicação direta e privada (mensagens) segue crescendo, enquanto o modelo de "mural público" do Facebook perde relevância.
Um ciclo sem volta?
Para analistas do setor, a tendência é considerada praticamente irreversível: uma vez que uma geração associa determinada rede a um público mais velho, dificilmente ela retoma engajamento entre os mais jovens. O Facebook, hoje, sobrevive como plataforma relevante entre adultos — permanece a rede mais usada por esse grupo, atrás apenas do YouTube — mas perdeu, definitivamente, o posto de espaço de socialização da juventude que ajudou a criar.