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Nos últimos tempos, o assunto voltou a circular: tempestades solares estariam colocando em risco celulares, internet e até a rede elétrica. A preocupação ganhou força depois que a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) monitorou uma série de ejeções de massa coronal capazes de provocar uma tempestade geomagnética, com possibilidade de aurora boreal visível no Canadá e no norte dos Estados Unidos. Mas afinal, existe mesmo risco de esses eventos "fritarem" os aparelhos eletrônicos das pessoas?
O que é uma tempestade solar
O Sol está longe de ser uma esfera tranquila. Sua superfície produz constantemente explosões capazes de liberar quantidades de energia comparáveis a milhares de bombas atômicas, lançando ao espaço enormes volumes de partículas carregadas e campos magnéticos — fenômeno conhecido como ejeção de massa coronal (EMC).
Quando esse material atinge a Terra, ele interage com o campo magnético do planeta e provoca as chamadas tempestades geomagnéticas. É essa mesma interação que produz as auroras boreais e austrais, um dos efeitos mais bonitos — e inofensivos — desses eventos. O problema é que o mesmo fenômeno também pode gerar consequências bem menos poéticas para a tecnologia que depende de eletricidade e sinais eletromagnéticos.
Por que 2026 está sendo um ano de atenção
O Sol segue um ciclo de atividade de aproximadamente 11 anos, alternando entre períodos mais calmos e mais intensos. Neste momento, o planeta está próximo do chamado "máximo solar", pico desse ciclo — só que, segundo especialistas, a intensidade observada em 2026 está acima do que era esperado. O número de manchas solares e explosões registradas está maior do que o previsto, o que aumenta a frequência de eventos como o monitorado nesta semana.
O mito do celular "fritando"
Apesar do temor, uma tempestade solar não queima o celular como se fosse um raio caindo diretamente sobre o aparelho. O impacto sobre os equipamentos do dia a dia costuma ser indireto: GPS impreciso, sinal de internet instável ou eventual queda de rede — não um dano físico direto ao hardware do smartphone que está no seu bolso. As chances de um dispositivo pessoal sofrer avaria por causa desses eventos são consideradas muito pequenas.
O risco real e mais grave está concentrado em outra escala: a infraestrutura que sustenta a tecnologia moderna.
Onde o perigo é de verdade
Redes elétricas. As variações no campo magnético terrestre durante uma tempestade geomagnética induzem correntes elétricas que podem sobrecarregar transformadores e subestações. Em eventos extremos, esses componentes gigantes podem superaquecer e até se danificar de forma permanente — e, ao contrário de um transformador residencial, eles não são fáceis nem rápidos de substituir, o que pode deixar regiões inteiras sem energia por dias, semanas ou até meses.
Satélites. Equipamentos em órbita, especialmente os geoestacionários, ficam expostos à radiação de alta energia, com risco de falhas parciais em sistemas de controle. Empresas de internet via satélite, como Starlink e Viasat, costumam monitorar de perto possíveis degradações no serviço durante esses eventos, principalmente em regiões de latitude mais alta.
GPS e sistemas de posicionamento. Como dependem de sinais de rádio, esses sistemas podem perder precisão durante tempestades geomagnéticas, afetando desde a aviação e o transporte marítimo até equipamentos agrícolas que usam posicionamento de precisão — em episódios anteriores, esse tipo de falha já durou horas.
Comunicação por rádio. As tempestades alteram as condições da ionosfera, camada da atmosfera usada para refletir ondas de rádio, o que pode interferir diretamente em comunicações de longa distância.
Cabos submarinos de internet. Mais de 95% do tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos. A fibra óptica em si não é afetada diretamente pelas correntes geomagnéticas, mas os repetidores eletrônicos instalados ao longo desses cabos — responsáveis por reforçar o sinal — podem ser danificados, o que teoricamente ameaça conexões internacionais de longa distância.
Computadores embarcados. Partículas de alta energia também podem alterar temporariamente bits na programação de sistemas computacionais, um fenômeno técnico conhecido como "single event upset", capaz de provocar falhas pontuais em satélites e outros sistemas sensíveis.
Já aconteceu antes
O episódio mais famoso da história é o chamado Evento Carrington, registrado em 1859. A tempestade solar foi tão intensa que criou auroras visíveis até em regiões como Cuba e o Caribe, e provocou curtos-circuitos com faíscas nos aparelhos de telégrafo da época — alguns chegaram a funcionar sozinhos, movidos apenas pela energia induzida na fiação.
Mais recentemente, tempestades solares registradas em 2024 e 2025 já interromperam comunicações via satélite e chegaram a acionar alarmes de superaquecimento em redes elétricas, embora sem causar apagões de grandes proporções.
Existe risco de um "apagão global"?
Cientistas levam a sério a possibilidade de uma supertempestade solar de grandes proporções, capaz de interromper comunicações, redes elétricas e até derrubar parte da internet global por semanas ou meses. Segundo estimativas de especialistas, a probabilidade de um evento realmente extremo desse porte acontecer na próxima década gira em torno de 10% — um risco baixo, mas não desprezível, justamente pela dependência quase total do mundo moderno em eletricidade e conectividade.
Vale se preocupar?
Para o cidadão comum, a resposta é simples: não há motivo para pânico. As tempestades solares monitoradas atualmente pela NOAA são classificadas como eventos pequenos a moderados, sem potencial de causar os cenários mais extremos descritos acima. O acompanhamento constante feito por agências espaciais como NASA e NOAA existe justamente para identificar com antecedência eventos de maior intensidade, dando tempo para que operadoras de energia e de satélites ativem protocolos de proteção — como redirecionamento de carga elétrica e desconexão preventiva de seções mais vulneráveis da rede.
Na prática, o que a maioria das pessoas pode notar nesses períodos é, no máximo, uma instabilidade passageira de GPS ou internet — e, com sorte, uma aurora boreal no céu, caso more em regiões de latitude mais alta.