Por muito tempo, o videogame nacional foi visto como um hobby de nicho, feito por poucos apaixonados em garagens e quartos de fundo. Esse cenário mudou. Hoje o Brasil exporta jogos, recebe reconhecimento internacional e figura em premiações ao lado de gigantes do setor. Reunimos cinco títulos que, cada um à sua maneira, ajudaram a colocar o desenvolvimento brasileiro no mapa.
1. Horizon Chase — a nostalgia dos arcades com motor novo
Criado pelo estúdio gaúcho Aquiris, Horizon Chase nasceu primeiro para celulares, em 2015, antes de ganhar uma versão turbinada para PC e consoles. A proposta é simples e certeira: corridas arcade que remetem diretamente aos clássicos dos anos 90, como Top Gear e Out Run, só que com visual em baixa poligonagem estilizado e trilha sonora vibrante. O jogo chegou a ter uma faixa remixada em parceria com o compositor britânico Barry Leitch, responsável pela trilha do próprio Top Gear original, e ainda ganhou um pacote de conteúdo em homenagem a Ayrton Senna, com parte da renda revertida ao instituto que leva o nome do piloto. É um exemplo de como saudosismo e identidade nacional podem virar um sucesso reconhecido mundo afora.
2. Dandara — Palmares como inspiração para um metroidvania
Desenvolvido pelo estúdio mineiro Long Hat House e lançado em 2018, Dandara pega emprestado o nome de uma figura histórica – Dandara dos Palmares, guerreira ligada à resistência quilombola – para construir um universo de plataforma completamente autoral. Em vez de correr ou pular como manda o figurino do gênero, a protagonista se desloca saltando entre superfícies, o que obriga o jogador a repensar a lógica espacial de cada fase. A mecânica inusitada rendeu ao jogo uma indicação ao prêmio de Melhor Jogo Brasileiro no BIG Festival, um dos maiores eventos de games independentes da América Latina, e o título segue disponível em praticamente todas as plataformas relevantes.
3. Chroma Squad — tokusatsu em turnos, com humor brasileiro
Também assinado pelo estúdio Behold Studios, Chroma Squad transforma a estética dos sentais japoneses – aquele universo de heróis coloridos em trajes que remetem a Power Rangers – em um jogo tático de estratégia por turnos com uma pitada de simulador de gestão. O jogador comanda um grupo de dubladores que decide largar a atuação para montar seu próprio programa de super-heróis, equilibrando batalhas contra monstros gigantes com a administração do próprio estúdio de TV. O resultado é uma mistura bem-humorada de referência pop e mecânicas de RPG tático, que rendeu ao estúdio reconhecimento tanto no Brasil quanto fora dele.
4. Mullet MadJack — velocidade, cabelo mullet e um futuro distópico
Um dos fenômenos mais recentes do indie nacional, Mullet MadJack foi criado pelo estúdio Hammer95 e distribuído pela gaúcha Epopeia Games. Lançado originalmente em 2024, o jogo é um FPS frenético com estética que bebe direto da fonte dos animes e arcades das décadas de 1980 e 1990: câmera em primeira pessoa, inimigos robóticos, visual saturado e uma regra de ouro que obriga o jogador a manter um ritmo quase impossível de ação non-stop. A premissa escancaradamente exagerada – salvar uma princesa refém de robôs bilionários em uma cidade distópica – reforça o tom de humor e irreverência que se tornou marca registrada do jogo, hoje citado como referência dentro do próprio cenário indie brasileiro.
5. A Investigação Póstuma — Machado de Assis em forma de jogo
Fechando a lista com uma proposta bem diferente das anteriores, A Investigação Póstuma é um projeto independente que parte de um dos maiores clássicos da literatura brasileira: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Em vez de apenas ilustrar o romance, o jogo transpõe sua narrativa non-fiction e seu tom irônico para uma experiência interativa, mostrando que o game brasileiro também pode dialogar com a própria tradição literária do país – e provando que "matéria-prima" para jogos nacionais não falta, inclusive fora do universo de ação e fantasia.
Esses cinco títulos não esgotam, nem de longe, a produção brasileira de jogos – há dezenas de outros estúdios país afora criando desde RPGs de criaturas inspirados na fauna nacional até survival horrors ambientados em cenários tropicais. Mas juntos, eles mostram uma coisa em comum: seja reinventando a nostalgia, seja resgatando a história e a literatura do país, o jogo brasileiro encontrou sua própria voz – e o mundo está prestando atenção.