Começa quase sempre da mesma forma: um K-drama numa noite qualquer. Dali, vem a curiosidade por um restaurante coreano, um cosmético, um álbum de K-pop — e, não raro, termina num sonho bem mais caro: uma viagem para Seul. O que era só entretenimento se consolidou como uma fatia real do orçamento das famílias brasileiras, e os números agora comprovam o tamanho desse fenômeno.
O que mostra a pesquisa
Um levantamento inédito da Serasa, feito em parceria com o Instituto Opinion Box e com apoio de divulgação do Centro Cultural Coreano no Brasil, mapeou como a Hallyu — nome dado à onda cultural sul-coreana — se transformou em hábito de consumo. A pesquisa ouviu brasileiros entre 8 e 20 de julho de 2026 e encontrou um interesse expressivo: 76% dos entrevistados dizem ter curiosidade ou interesse pelo universo coreano.
Esse interesse rapidamente vira gasto recorrente. Segundo o estudo, 29% dos entrevistados compram produtos ligados à cultura coreana pelo menos uma vez por mês, e outros 21% fazem esse tipo de compra a cada dois ou três meses. Quase metade — 49% — já admite ter gasto mais do que planejava com produtos, eventos ou experiências relacionados ao tema, e 47% afirmam gastar até R$ 250 por mês nesse universo. Entre os fãs que frequentam eventos presenciais, 28% já ultrapassaram R$ 1 mil em despesas.
A pesquisa não estima o tamanho total desse mercado no Brasil, mas evidencia algo relevante: a cultura coreana conquistou uma linha própria na planilha financeira de muita gente.
A porta de entrada não é o K-pop
Um dado chama atenção: ao contrário do que se poderia supor, o K-pop não é o principal responsável por atrair novos fãs. Os K-dramas lideram como porta de entrada, citados por 26% dos entrevistados, à frente das redes sociais (19%) e da música (14%).
A partir daí, o consumo se espalha em cadeia: a série desperta interesse pela gastronomia, a música leva à compra de álbuns, e as redes sociais — sobretudo o Instagram, citado por 66% como principal canal de acesso a esse conteúdo, seguido por plataformas de streaming (47%) e YouTube (46%) — apresentam novos produtos o tempo todo.
A comida tem papel especial nessa expansão: experimentar um prato coreano custa muito menos do que viajar ou ir a um show, funcionando como porta de entrada acessível. Segundo dados complementares da própria Serasa, 47% dos entrevistados passaram a pesquisar mais sobre a Coreia do Sul e a experimentar novos alimentos depois que começaram a acompanhar o universo Hallyu, e 41% se dedicaram a estudar o idioma coreano.
Sonhos maiores, orçamento menor
O envolvimento cultural também alimenta projetos de longo prazo. Quase metade dos entrevistados (48%) sonha em conhecer a Coreia do Sul pessoalmente. Outros 43% querem estudar o idioma com mais profundidade, 26% desejam fazer intercâmbio e 25% pretendem assistir a um show de K-pop ao vivo.
O problema é o orçamento: 65% dos entrevistados já deixaram de realizar algum desejo ligado ao país por razões financeiras. A falta de dinheiro é a barreira mais citada (35%), seguida pelo custo da viagem (25%) e pela falta de planejamento (14%). Ainda assim, 82% acreditam que a organização financeira pode ajudar a transformar esses planos em realidade, e 25% já estão economizando ativamente para isso — muitas vezes com metas como morar na Coreia do Sul ou participar de um show específico.
O fandom do K-pop: um estudo de caso à parte
Se a Hallyu como um todo já movimenta o consumo brasileiro, o fandom de K-pop mostra um comportamento ainda mais intenso. Uma pesquisa da Billboard Brasil, feita com cerca de 10 mil fãs em todo o país e divulgada em abril de 2026, traçou um retrato detalhado desse público — majoritariamente jovem, hiperconectado e engajado diariamente com os artistas.
Alguns números ilustram o tamanho do investimento:
61% compraram photocards (cartões colecionáveis com foto de integrantes de grupos) no último ano
57,2% compraram álbuns físicos
51,4% já gastaram até R$ 1 mil no universo K-pop
13,5% gastaram mais de R$ 2 mil
11,4% ultrapassaram R$ 5 mil em gastos acumulados
65% gostam de colecionar itens dos artistas
82,4% interagem com outros fãs nas redes sociais
Segundo análise do banco Itaú sobre os mesmos dados, o consumo do fandom tem um componente emocional forte: mais de 70% dos fãs apontam o hobby como forma de aliviar o estresse, e cerca de 65% relatam que ele funciona como apoio emocional. Diante de gastos recorrentes — álbuns, ingressos, assinaturas de streaming, viagens para shows — muitos fãs passaram a adotar estratégias de organização financeira, como antecipar custos maiores e criar reservas para os períodos de maior demanda, incluindo divisão de despesas entre grupos de fãs.
Por que 2026 é um ano especialmente movimentado
O timing da pesquisa não é acaso. O calendário de shows de K-pop no Brasil está particularmente cheio neste ano: o Stray Kids se apresenta como headliner do Rock in Rio em setembro — uma primeira vez para o gênero no festival —, e o BTS retorna ao país pela quinta vez, com três shows em São Paulo entre 28 e 31 de outubro, já esgotados. Grupos como aespa, iKON, KARD e artistas solo também têm datas confirmadas ao longo do segundo semestre.
O momento também é de recorde para a indústria coreana como um todo: as exportações de álbuns de K-pop da Coreia do Sul bateram recorde no primeiro semestre de 2026, somando US$ 257,48 milhões em vendas internacionais — alta de 125% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada por lançamentos de BTS e BLACKPINK.
O que fica desse retrato
Os dados, tomados em conjunto, mostram uma progressão clara: a cultura coreana chegou ao Brasil pelas telas, ganhou as redes sociais e hoje disputa espaço em setores como alimentação, beleza, educação, turismo e eventos. Não é mais possível tratar a Hallyu como nicho — ela já disputa, de fato, uma fatia do orçamento de milhões de brasileiros, com todos os desafios financeiros e emocionais que isso implica para quem vive esse fandom no dia a dia.