Corais de Galápagos mostram que os El Niños dos últimos 40 anos são os mais fortes em mil anos

Imagem meramente ilustrativa

Um estudo publicado na revista científica Science concluiu que os episódios de El Niño registrados nas últimas quatro décadas romperam o padrão observado ao longo de todo o milênio anterior à Revolução Industrial. A pesquisa se baseou em uma fonte pouco óbvia de dados climáticos: os corais das Ilhas Galápagos.

Uma variação fora da curva

De acordo com o levantamento, a variabilidade do ENSO — o ciclo que alterna entre as fases quente (El Niño) e fria (La Niña) no Pacífico — cresceu 36,5% na comparação com o período pré-industrial. Os autores atribuem esse salto sobretudo à maior intensidade dos próprios eventos de El Niño, e não da La Niña.

O mais relevante é que esse aumento não aparece nas simulações climáticas quando se consideram apenas fatores naturais, como erupções vulcânicas, variações da atividade solar e oscilações internas do sistema climático. Ou seja: o comportamento observado nos últimos 40 anos foge do que seria esperado sem a interferência do aquecimento global — ainda que os cientistas façam questão de frisar que isso não significa que cada El Niño individual seja "causado" pelas emissões humanas. O fenômeno continua sendo, em sua origem, um processo natural.

Como um coral guarda a memória do oceano

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O grande obstáculo para estudar tendências de longo prazo no El Niño é a escassez de dados: registros por satélite e boias oceânicas cobrem só algumas décadas, tempo curto demais para separar uma tendência real de uma simples oscilação de longo prazo. Para contornar esse limite, a equipe recorreu a 13 amostras de corais — vivos e fósseis — coletadas nas Galápagos, arquipélago que fica bem na região do Pacífico onde os efeitos do El Niño costumam aparecer com mais força.

Corais crescem depositando camadas sucessivas de carbonato de cálcio, e a composição química de cada camada reflete as condições da água do mar naquele momento. Medindo a relação entre estrôncio e cálcio, além de isótopos de oxigênio no esqueleto dos corais, os pesquisadores conseguiram reconstruir a temperatura da superfície do oceano ao longo dos últimos mil anos — muito antes da existência de qualquer instrumento de medição moderno.

Por que isso importa agora

O achado ganha um peso extra por causa do momento: o El Niño de 2026 está em fase de fortalecimento, e a agência americana NOAA estima mais de 90% de chance de o fenômeno atingir intensidade "muito forte" entre o segundo semestre deste ano e o início de 2027.

Quando mais intenso, o El Niño tende a provocar efeitos mais extremos e menos previsíveis ao redor do planeta — de chuvas fortes a secas prolongadas, passando por ondas de calor e maior risco de incêndios florestais, dependendo da região e da época do ano. O estudo não traz projeções específicas para o Brasil, mas reforça uma mensagem mais ampla: em um planeta mais quente, o "motor" que gera o El Niño parece estar sendo empurrado para extremos cada vez menos parecidos com o que a humanidade viveu na era pré-industrial — o que aumenta a pressão sobre agricultura, abastecimento de água e planejamento energético em várias partes do mundo.

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