Quando a gente pensa em procurar vida fora da Terra, a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser a de robozinhos vasculhando a poeira vermelha e seca de Marte, né? Só que a astronomia moderna está mudando o foco da luneta. A aposta mais quente dos cientistas agora está bem mais longe do Sol, escondida sob crostas grossas de gelo: os oceanos subterrâneos das luas dos planetas gigantes.
Análises atualizadas das missões espaciais que investigaram Encélado (lua de Saturno) e Europa (lua de Júpiter) confirmaram uma descoberta de cair o queixo: o fundo dos mares dessas luas possui vulcões e fontes hidrotermais em plena atividade!
Os três ingredientes da "receita da vida"
Para uma receita de vida funcionar — pelo menos do jeito que a gente conhece na Terra —, a natureza precisa entregar três coisas básicas:
Água em estado líquido: E isso essas luas têm de sobra. Sob uma casca de gelo que pode ter quilômetros de espessura, existem oceanos globais gigantescos com mais água do que todos os mares da Terra juntos.
Fontes de calor/energia: Sem a luz do Sol, de onde vem o calor? Da força de gravidade esmagadora dos planetas gigantes (Júpiter e Saturno), que "espremem" e esticam essas luas por dentro, gerando atrito e calor no núcleo de rocha.
Química orgânica: Os dados das sondas mostraram a presença de compostos de carbono, nitrogênio e complexos orgânicos jorrando pelos géis e fendas da superfície.
Ao encontrar fontes hidrotermais no fundo desses oceanos escuros, a ciência percebeu que essas luas têm o mesmo ecossistema que deu origem às primeiras formas de vida na Terra, nas profundezas dos nossos próprios oceanos!
Como sabemos o que tem lá dentro se o oceano está sob o gelo?
O mais incrível em Encélado, por exemplo, é que a própria lua facilita o trabalho dos astrônomos. A pressão interna é tão grande que ela lança geysers gigantescos de água e gelo diretamente para o espaço por fendas no Polo Sul (chamadas de "listras de tigre").
As naves espaciais puderam voar literalmente "por dentro" dessas plumas de vapor e "provar" a química do oceano interno sem precisar nem sequer pousar ou perfurar o gelo!
O que podemos encontrar por lá?
Ninguém está esperando encontrar peixes gigantes ou cidades subaquáticas nessas luas. A busca é focada em micro-organismos, bactérias e ecossistemas extremófilos (formas de vida que sobrevivem no escuro absoluto e sob pressões brutais).
Se as futuras missões confirmarem a presença de vida microbiana nesses oceanos congelados, a humanidade terá a resposta para uma das maiores perguntas da história: a vida não é um privilégio exclusivo da Terra, mas sim uma consequência natural do universo onde quer que existam água e energia!