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A gente ficou mais inteligente com IA ou só mais preguiçoso?


Uma pesquisa da CNN em parceria com o Instituto Locomotiva pôs o dedo numa ferida que boa parte de quem usa ChatGPT no dia a dia talvez prefira não encarar: será que a inteligência artificial está mesmo nos deixando mais espertos, ou só mais dependentes?

O paradoxo em números....

O levantamento mostra um contraste e tanto: dois terços dos brasileiros entrevistados dizem que a IA os deixou mais inteligentes. Só que, ao mesmo tempo, metade admite ter ficado mais preguiçosa por causa dela. E o detalhe mais curioso é que essas duas sensações não são excludentes — boa parte de quem se sente mais esperto é justamente quem também se sente mais preguiçoso.

Descendo mais fundo nos números, a dependência aparece espalhada em situações bem cotidianas:

  • 31% dizem não conseguir aprender algo novo do zero sem recorrer à IA
  • 25% não tomam decisões financeiras sem antes consultar a ferramenta
  • 22% não resolvem conflitos pessoais sem passar pela IA antes

"Algoritmização do pensamento"

Foi assim que o neurocientista Álvaro Machado, sócio do Instituto Locomotiva, batizou esse fenômeno ao comentar os resultados. Segundo ele, essa preguiça crescente é sintoma de algo mais sério: as pessoas estão perdendo, aos poucos, o controle sobre o próprio raciocínio — deixando o algoritmo guiar cada vez mais decisões que antes exigiam pensar por conta própria.


Machado recorreu a uma pesquisa do MIT pra explicar a diferença entre dois jeitos de usar IA. Quando a ferramenta é usada pra explorar um assunto novo — tipo pesquisar e ampliar repertório — o cérebro sai fortalecido dessa interação. O problema é quando a IA passa a substituir completamente a elaboração do pensamento, como simplesmente pedir pra ela escrever um texto do zero: nesse caso, as áreas cerebrais ativadas têm bem menos a ver com raciocínio profundo do que quando a gente faz a tarefa sozinho.

O que torna esse momento diferente de outras tecnologias, segundo Machado, é que ferramentas anteriores  da escrita à calculadora — sempre foram só apoio. A IA, pela primeira vez, consegue construir o raciocínio inteiro e entregar o resultado final praticamente pronto, o que muda a natureza da relação entre humano e ferramenta.

O risco mora na sala de aula

Um dos pontos mais sensíveis do alerta de Machado é justamente a educação. Tratar o conteúdo escolar como dispensável, só porque "está tudo na IA mesmo", ignora um detalhe importante: é o esforço de aprender que constrói o desenvolvimento da pessoa, não só o acesso à informação em si.

Pra ele, a diferença central está em decorar versus formar raciocínio: informação decorada se perde com o tempo, mas o pensamento construído com esforço é o que realmente fica — e é isso que sustenta a capacidade de argumentar e resolver problemas no futuro. A conclusão de Machado resume bem o dilema: o desafio não é abrir mão da IA, mas usá-la para somar ao raciocínio humano, e não pra substituí-lo.

Fonte: CNN

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