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Aquele restinho de feijão quebrado que ninguém queria virou proteína de primeira linha


Sabe aquela "bandinha" de feijão que sobra quando o grão é beneficiado. os pedacinhos partidos que perdem valor comercial e mal são notados por quem compra o pacote no mercado? Pois pesquisadores brasileiros descobriram um jeito de transformar exatamente esse resto em um ingrediente proteico de alta qualidade, capaz de disputar espaço com a soja e a ervilha na indústria alimentícia.

De onde vem a ideia

O trabalho é assinado por cientistas da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), ligada ao Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, com apoio da FAPESP. A lógica por trás do projeto é bem direta: o Brasil é o segundo maior produtor mundial de feijão, e o carioca — o queridinho do prato do brasileiro — responde sozinho por mais da metade da produção nacional, que gira em torno de 3 milhões de toneladas por ano. Só que, no processo de beneficiamento, entre 1% e 5% dos grãos saem quebrados e acabam desvalorizados. A sacada foi simplesmente parar de desperdiçar esse volume e transformá-lo em matéria-prima de verdade.

Hoje, boa parte das proteínas vegetais usadas pela indústria brasileira — como as de soja e ervilha — vem de fora. Ter uma alternativa nacional, feita a partir de um grão que o país já produz em escala gigantesca, reduz essa dependência de importação.

Como o feijão vira proteína

Bem, o método usado se chama fracionamento a seco, uma alternativa mais sustentável às técnicas químicas tradicionais: sem uso de solventes e com bem menos consumo de água e energia do que os processos convencionais. Na prática, o grão é moído até virar farinha integral e depois separado mecanicamente em duas partes, uma rica em amido e outra concentrada em proteína.

O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores. A fração proteica chegou a uma concentração de 40% a 50% de proteína e, mais importante, apresentou todos os aminoácidos essenciais que o corpo humano precisa — algo raro entre proteínas de origem vegetal, que normalmente pecam em um ou dois aminoácidos e precisam ser combinadas com proteína de cereal para compensar. Aqui, isso não foi necessário.


Resolvendo o problema do "gosto de feijão"

Quem já tentou usar proteína vegetal em receitas industriais sabe do maior obstáculo: aquele sabor residual de terra e a cor escura que afastam o consumidor. Um pré-tratamento térmico aplicado ao feijão antes da moagem deu conta de resolver os dois problemas de uma vez — reduzindo em até 95% substâncias antinutricionais que atrapalham a digestão (como fitatos e taninos) e deixando o ingrediente final com sabor neutro e cor clara, muito mais fácil de incorporar em alimentos do dia a dia.

O que já foi testado

Os pesquisadores não pararam na teoria. A fração proteica virou base para um pó instantâneo de cappuccino sem açúcar, além de misturas com frutas tropicais como manga e maracujá usadas em bebidas vegetais fermentadas — tudo sem precisar de aromas ou corantes artificiais. E nem a parte rica em amido, que ainda guarda de 10% a 20% de proteína, foi desperdiçada: ela deu origem a salgadinhos tipo snack em versões neutra, salgada e doce.

E agora, quando chega ao mercado?

O ingrediente já está em fase de validação em ambiente fabril, com testes de escala industrial conduzidos por uma das empresas parceiras do projeto. A tecnologia deve ser oferecida à indústria como pacote pronto para licenciamento — modelo de inovação aberta que já rendeu à plataforma mais de 30 novos ingredientes alimentícios e mais de 20 processos industriais em pouco mais de quatro anos de trabalho.

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