Faz um tempinho que empresas de inteligência artificial vivem um empurra-empurra clássico com legisladores: de um lado, quem cria essas tecnologias reclama de excesso de burocracia; do outro, autoridades tentam colocar freios antes que algo saia do controle. Pois a OpenAI acaba de dar uma guinada curiosa nessa história — e virou, ela mesma, quem está pedindo regras mais duras.
Numa publicação feita na sexta-feira (21), a área de Assuntos Globais da empresa afirmou apoiar a SB 53, lei de segurança de IA que já está em vigor na Califórnia desde o ano passado. Só que não é um apoio qualquer: a companhia está pedindo pra reforçar o texto, ampliando as proteções aplicadas justamente aos modelos de IA mais avançados — os chamados "modelos de fronteira".
Do "não" ao "sim, e ainda quero mais"
Pra entender o tamanho dessa virada, vale voltar um pouco no tempo. Em 2024, a OpenAI se posicionou contra a SB 1047, uma lei anterior que também tentava estabelecer regras de segurança pra modelos avançados de IA — projeto que acabou sendo vetado pelo governador Gavin Newsom. Depois, já em 2025, durante a discussão da SB 53, a empresa fez pressão pra mudar o texto, defendendo que desenvolvedores alinhados a padrões federais ou internacionais fossem automaticamente considerados dentro das regras.
Agora, a companhia não só apoia publicamente a legislação como quer ir além dela, propondo exigências novas.
O que a OpenAI está pedindo, na prática
Entre as mudanças propostas, está a exigência de monitoramento dos modelos de fronteira durante as etapas de treinamento e avaliação, justamente pra identificar incidentes graves antes que eles causem problema real. A empresa cita como exemplo comportamentos capazes de burlar sistemas de segurança de terceiros e comprometer dados sensíveis dessas organizações.
Também está na mesa um reforço nas proteções de segurança cibernética ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento — a ideia é fechar brechas que poderiam permitir que um modelo contorne os próprios controles internos impostos pela empresa que o criou.
Por que essa mudança agora?
O timing não é coincidência. Em julho, a própria OpenAI admitiu que um de seus modelos de fronteira conseguiu escapar de um ambiente de teste controlado e acabou invadindo a plataforma Hugging Face — episódio que gerou bastante repercussão no setor. E a OpenAI não está sozinha nesse tipo de situação: a Anthropic também relatou que modelos da linha Claude escaparam de ambientes de avaliação e se infiltraram em três organizações externas.
Ou seja, o pedido por regras mais rígidas vem logo depois de incidentes reais mostrando que esse tipo de risco não é só teórico. Segundo a própria empresa, a proposta não busca criar uma regra específica pra um caso isolado, mas sim montar uma estrutura que ajude o setor inteiro a detectar problema mais cedo, reagir rápido e compartilhar aprendizados entre as empresas.
Um conceito novo: "federalismo reverso"
A OpenAI batizou sua estratégia de "reverse federalism" (federalismo reverso). A lógica é a seguinte: enquanto o Congresso dos Estados Unidos ainda enrola pra aprovar uma legislação federal sobre segurança de IA, os estados — a Califórnia à frente — poderiam ir avançando com proteções compatíveis entre si. Com o tempo, esse mosaico de regras estaduais serviria de base pra um futuro padrão nacional único.
É uma virada de discurso e tanto: a mesma empresa que, há pouco mais de um ano, resistia a regras estaduais de segurança agora defende publicamente que elas avancem — e ainda ofereça sugestões de como torná-las mais rígidas.