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Enquanto rodam pela cidade esperando a próxima corrida, cada vez mais motoristas de aplicativo descobriram uma segunda fonte de renda literalmente ao alcance da mão do passageiro: transformar o banco de trás — ou uma estante improvisada atrás do banco do carona — em uma pequena loja. Água, balas, perfumes, carregadores de celular e até maquiagem passaram a compor o cardápio extra oferecido durante as viagens de Uber, 99 e outros apps de transporte, num movimento que já rendeu reportagens em diferentes capitais do país.
Um negócio que nasce da necessidade
A lógica por trás da "lojinha sobre rodas" é simples: o motorista já está com o carro rodando, o passageiro já está ali, parado, muitas vezes por 15, 20 minutos de trajeto — por que não aproveitar esse tempo para oferecer algo além da corrida? Em Porto Alegre, motoristas relataram à RBS TV que adotaram a prática justamente como resposta aos desafios da economia atual e à necessidade de otimizar cada minuto gasto no trânsito da capital gaúcha, criando fontes de receita que em alguns casos já superam o valor bruto arrecadado com as próprias corridas.
O fenômeno não é exclusivo de uma cidade. Em Belém, um motorista identificado como Arthur virou notícia ao transformar o veículo em uma espécie de loja completa, surpreendendo passageiros que elogiaram a criatividade e o espírito empreendedor da iniciativa. Já em Fortaleza, a prática ganhou uma escala ainda mais expressiva.
Quando a lojinha rende mais que a corrida
O caso mais emblemático vem do Ceará. Depois de nove anos rodando como motorista de aplicativo, Hildebrando Vieira, de 40 anos, apostou em uma pequena loja montada dentro do carro, com destaque para perfumes similares a marcas importadas expostos em uma estante adaptada atrás do banco do carona. O resultado surpreendeu o próprio motorista: em meses fracos, o faturamento com as vendas fica entre R$ 3 mil e R$ 4 mil; nos meses bons, chega a R$ 7 mil — o dobro do que ele consegue apenas com as corridas.
A essa altura, o negócio já virou uma operação familiar: a esposa de Hildebrando, Érika Teixeira, também motorista de aplicativo, seguiu os mesmos passos e passou a vender produtos em seu próprio veículo. Juntos, o casal chega a somar cerca de R$ 10 mil por mês entre corridas e vendas — uma renda que dificilmente seria alcançada apenas com o valor pago pelos aplicativos de transporte.
Por que a estratégia funciona
Reportagens sobre o tema apontam um fator recorrente: a insatisfação com a remuneração das plataformas de transporte. Vender produtos dentro do carro surge como resposta direta a esse cenário, ao mesmo tempo em que aproveita algo que o motorista já possui — um público cativo, dentro de um espaço fechado, por tempo suficiente para conhecer o que está à venda. Diferente de um ponto comercial fixo, a "loja" se movimenta pela cidade inteira, alcançando clientes diferentes a cada corrida, sem custo de aluguel ou vitrine.
Também ajuda o fato de que, em muitos casos, a compra por impulso funciona bem nesse formato: um passageiro com sede, sem tempo de parar em uma loja de conveniência, tende a comprar a água ou o doce oferecido ali mesmo, no banco de trás. O mesmo vale para produtos de maior valor agregado, como perfumes e eletrônicos — a exposição direta, sem intermediários, facilita a decisão de compra durante o trajeto.
Uma tendência que já virou movimento organizado
O crescimento da prática chamou a atenção até de marcas, que passaram a criar programas voltados especificamente para motoristas de aplicativo interessados em vender produtos durante as corridas — de perfumaria a cosméticos —, oferecendo kits e suporte para que o motorista monte sua própria "lojinha" sem precisar montar a operação do zero. É um sinal de que o que começou como solução criativa e isolada de alguns motoristas está se transformando em um canal de vendas reconhecido, com cada vez mais gente enxergando no próprio carro não apenas uma ferramenta de trabalho, mas um pequeno ponto de comércio ambulante
Informação: Gaúcha