A UnionPay International, subsidiária da estatal chinesa de pagamentos UnionPay, anunciou o início de um projeto-piloto para conectar seus aplicativos ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. A medida vai permitir que turistas chineses paguem em estabelecimentos comerciais do Brasil por meio da leitura de QR codes, usando saldo mantido em contas bancárias na China, com a possibilidade de o projeto ser ampliado depois para incluir outras carteiras digitais que também operam com QR code.
Como vai funcionar
Segundo informações da imprensa chinesa repercutidas pelo South China Morning Post, usuários do aplicativo da UnionPay e de bancos chineses vinculados à plataforma vão poder escanear o código de pagamento do estabelecimento brasileiro e concluir a compra diretamente, sem precisar converter dinheiro previamente ou abrir conta em banco local. O anúncio foi feito pelo Consulado-Geral da China no Rio de Janeiro, mas ainda não há data de início definida nem confirmação de qual empresa brasileira vai operacionalizar a conexão do lado de cá.
Vale destacar que, por enquanto, a iniciativa fica restrita ao aplicativo da própria UnionPay e às instituições financeiras ligadas a ela — os dois sistemas de pagamento móvel mais populares da China, Alipay e WeChat Pay, não fazem parte deste piloto inicial.
O pano de fundo: a disputa com os EUA
O movimento chinês ganha destaque especial por acontecer em meio a um momento de forte tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. Em julho, o governo americano incluiu o Pix entre os alvos de uma investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, argumentando que o sistema criaria uma vantagem indevida para a infraestrutura estatal brasileira em detrimento das operadoras privadas de cartão — como a própria Visa, americana. Esse argumento acabou entrando entre as justificativas usadas por Washington para a aplicação de tarifas adicionais de até 25% sobre produtos brasileiros.
O governo brasileiro rejeita essa leitura. A posição oficial é a de que o Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos, hoje uma referência internacional em eficiência e inclusão financeira, sem qualquer intenção de discriminar empresas estrangeiras. Curiosamente, até executivos de empresas americanas do setor, caso da própria Visa, já elogiaram publicamente o funcionamento do sistema brasileiro.
Números que sustentam o interesse chinês
O avanço da aproximação entre os dois países também tem respaldo em dados concretos de turismo e consumo. O Brasil recebeu mais de 100 mil turistas chineses em 2025, um crescimento de 35% em relação ao ano anterior, e esse fluxo seguiu subindo — mais 30% já no primeiro trimestre de 2026. No mesmo período, as transações feitas em maquininhas brasileiras com cartões UnionPay emitidos na China cresceram mais de 30%, o que ajuda a explicar o apetite da empresa chinesa por uma conexão direta e mais simples com o Pix.
A UnionPay atua no Brasil há mais de duas décadas e já mantém uma rede de aceitação em estabelecimentos de destinos turísticos e em caixas eletrônicos ligados ao sistema bancário nacional. Segundo a companhia, o fluxo maior de visitantes chineses também foi impulsionado pela isenção de visto para cidadãos da China que viajam ao Brasil, adotada em maio de 2026.
O que ainda está em aberto
Criado pelo Banco Central em 2020, o Pix hoje é uma das principais infraestruturas financeiras do país, com mais de 170 milhões de pessoas físicas cadastradas e mais de 7 bilhões de transações registradas somente em maio de 2026. Apesar da escala já alcançada internamente, o Brasil ainda não tem uma regulamentação específica para conectar o sistema a redes de pagamento estrangeiras — o que torna a chegada da UnionPay um caso a ser observado de perto, tanto pelo precedente que cria quanto pelas discussões regulatórias que deve provocar no Banco Central.
Fica também em aberto o quanto esse movimento se conecta a uma tendência mais ampla discutida por analistas: a de países buscando alternativas de pagamento internacional menos dependentes do dólar e das redes tradicionais de cartão, num contexto de maior atrito comercial entre grandes economias.