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Se você tem mais de 30 anos, provavelmente já passou horas escolhendo a música que tocava automaticamente no seu perfil e brigando com alguém pra entrar na sua lista de "Top 8". Pois é: o Myspace já foi o lugar da internet. E hoje, em 2026, ele virou assunto de novo — só que por um motivo diferente. Vamos por partes.
O auge: quando o Myspace era maior que o Google
O Myspace nasceu em 2003, criado por Tom Anderson e Chris DeWolfe. A ideia era simples pros padrões da época: um perfil onde você podia colocar sua cara, seus amigos, fotos, vídeos e — o grande diferencial — mexer no HTML pra deixar tudo do seu jeito. Fundo roxo com glitter, música tocando sozinha, layout emprestado de site de fã-clube. Era bagunçado, mas era seu.
Isso bombou tanto que em 2006 o Myspace ultrapassou o Google como o site mais visitado dos Estados Unidos. Chegou a ter mais de 115 milhões de usuários customizando perfis, e no auge foi avaliado em algo perto de US$ 12 bilhões. Foi também berço de carreiras musicais — Adele e Arctic Monkeys, por exemplo, decolaram por lá.
E tem uma pérola pouco lembrada: em 2005, um Mark Zuckerberg ainda desconhecido tentou vender o Facebook (que tinha só um ano de vida) pro Myspace por US$ 75 milhões. O CEO do Myspace, Chris DeWolfe, achou caro demais e recusou. Você já sabe como essa história termina.
A queda: Murdoch, bagunça e o Facebook batendo na porta
Em 2005 a News Corporation, do magnata Rupert Murdoch, comprou o Myspace por US$ 580 milhões. O problema é que uma gigante de mídia tradicional não tinha lá muita experiência administrando rede social — e isso começou a pesar. A interface foi ficando cada vez mais poluída de anúncios, o site ficava lento, e lançamentos como o "Myspace Music" saíram caros e problemáticos, só acelerando o desgaste.
Enquanto isso, o Facebook ia crescendo quietinho com uma proposta mais limpa e direta. Em 2008 os dois ainda empatavam, com cerca de 115 milhões de visitantes por mês cada um. Mas dali em diante foi ladeira abaixo pro Myspace: em 2009 o Facebook ultrapassou de vez, tanto em tráfego global quanto nos EUA, e o Myspace nunca mais se recuperou.
O resultado: em 2011, a News Corp vendeu o Myspace por míseros US$ 35 milhões — uma fração do que tinha pago seis anos antes. Quem comprou foi a Specific Media, em sociedade com um investidor de peso: o cantor Justin Timberlake.
O golpe final: sumiram 50 milhões de músicas
Se a queda de audiência já foi feia, teve um capítulo à parte que praticamente selou o funeral cultural do Myspace. Numa migração de servidores mal feita, a empresa perdeu cerca de 50 milhões de músicas de 14 milhões de contas de artistas — mais de uma década de material de bandas independentes, hospedado ali entre 2003 e 2015, evaporou. Foi apontado como um dos maiores desastres digitais da história da música online. Muita coisa daquele arquivo simplesmente não existe em nenhum outro lugar.
Ele nunca morreu de verdade
Aqui vai o detalhe que muita gente esquece: o Myspace nunca saiu do ar. Ele só foi ficando cada vez mais vazio, como aquele shopping que era badalado nos anos 2000 e hoje só tem duas lojas abertas. Desde 2011 ele pertence aos irmãos Tim e Chris Vanderhook, fundadores da empresa de tecnologia de anúncios Viant, que já tentaram reposicionar a marca como algo focado em música — sem muito sucesso.
E agora, em 2026: um Myspace de volta?
É aqui que a história fica interessante de novo. Nas últimas semanas os próprios donos vêm dando declarações sobre um possível relançamento. Em um documentário recente chamado "Myspace", os irmãos Vanderhook disseram algo como: continuam sendo os guardiões da marca e vão relançar a plataforma assim que sentirem que é a hora certa — e se não der certo da primeira vez, tentam de novo.
O timing não é por acaso. Tem uma onda crescente de gente cansada de feed movido a algoritmo, cheio de anúncio e de conteúdo gerado por IA, e nostálgica daquela internet mais "artesanal" dos anos 2000. Inclusive, o número de contas registradas no Myspace passou de 2 milhões no início de 2026, um salto grande frente às cerca de 400 mil de alguns anos atrás — puxado justamente por gente que curte a estética old school.
Só que os desafios são grandes: quase duas décadas de regulação e políticas de segurança que não existiam antes, questões de licenciamento musical bem mais complexas, e um mercado hoje lotado de gigantes (TikTok, Instagram, X, entre outros). Sem falar que a própria dupla de donos já tentou "modernizar" o site antes e admitiu publicamente que virou "uma sucessão de prejuízos". Ainda não há data nem detalhes concretos de como seria essa nova versão.
Resumindo
O Myspace não foi enterrado por um único erro — foi uma combinação de dono despreparado, interface poluída, um concorrente mais ágil chegando na hora certa, e uma tragédia técnica que apagou parte da memória musical de uma geração. Mas o fato de ainda estar de pé, ganhando usuários por nostalgia e cotado pra um relançamento em 2026, mostra que aquela ideia original — um perfil que era genuinamente seu, bagunçado do seu jeito — ainda tem apelo. Resta saber se dá pra recriar isso numa internet completamente diferente.