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Tchau, orelhão: por que esse ícone das ruas brasileiras está sumindo em 2026


Se você cresceu no Brasil antes dos anos 2010, com certeza tem uma cena na cabeça: correr até o orelhão mais próximo com uma ficha telefônica na mão (ou depois, o cartão), torcer pra não estar quebrado, e fazer aquela ligação rápida antes que "caísse a ficha" — sim, a expressão que a gente usa até hoje pra dizer que "entendeu alguma coisa" vem exatamente daí. Pois é, prepara o coração porque esse pedacinho de nostalgia urbana tá com os dias contados de verdade.

O que tá rolando

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) autorizou a retirada definitiva dos últimos orelhões que ainda restam espalhados pelas ruas do país. A remoção começou oficialmente em janeiro de 2026, depois que terminaram as concessões de telefonia fixa das operadoras responsáveis pelos aparelhos (Oi, Algar, Claro e Telefônica/Vivo).

Na prática, o que aconteceu foi isso: o setor de telefonia fixa deixou o antigo regime de concessão — que obrigava as empresas a manter os orelhões funcionando — e passou a operar por autorização, um modelo bem mais flexível. Sem essa obrigação, as operadoras simplesmente não têm mais motivo pra manter um aparelho que, convenhamos, quase ninguém usa mais.

E os números mostram isso claramente: em dezembro de 2025, o Brasil ainda tinha cerca de 38 mil orelhões de pé. Só que o uso caiu abismalmente — a Vivo, por exemplo, relatou uma queda de 93% no uso dos aparelhos nos últimos cinco anos. A estimativa é que cerca de 30 mil orelhões sejam removidos ao longo deste ano, principalmente em áreas centrais, corredores comerciais e avenidas movimentadas.

Mas calma, ele não vai sumir 100%

Pra quem mora em áreas remotas, comunidades indígenas ou regiões onde o sinal de celular ainda é fraco (ou nem existe), respira aliviado: cerca de 9 mil orelhões devem continuar funcionando até pelo menos 31 de dezembro de 2028, garantindo comunicação básica e emergencial pra quem realmente ainda depende deles. Como compensação por deixar de manter os aparelhos nas cidades grandes, as operadoras vão redirecionar investimento pra expandir banda larga e redes móveis — o que, cá entre nós, faz todo sentido no mundo de hoje.

E quem inventou essa cúpula amarela que virou símbolo do Brasil?

Revista Galileu

Aqui vai a parte que pouca gente sabe: o orelhão tem mãe, e o nome dela é Chu Ming Silveira. Uma arquiteta e designer sino-brasileira, nascida em Xangai, na China, em 1941, que veio pro Brasil ainda criança, aos 10 anos, fugindo com a família da perseguição comunista.

Chu Ming se formou em Arquitetura pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, e em 1966 começou a trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), onde chegou a chefiar o Departamento de Projetos. Foi lá, em 1971, que ela recebeu um desafio e tanto: criar um protetor pra telefones públicos que unisse funcionalidade e beleza — já que, até então, os telefones ficavam largados sem nenhuma proteção dentro de bares, farmácias e postos de serviço, o que deixava qualquer ligação particular um constrangimento e tanto.

A solução dela? Se inspirar no formato de um ovo, que ela considerava a melhor forma acústica possível. Assim nasceram os famosos protetores Chu I (o "Orelhinha") e Chu II — esse último, o que a gente conhece de coração até hoje como Orelhão, batizado em homenagem à própria criadora.

O aparelho estreou oficialmente pro público em janeiro de 1972, primeiro no Rio de Janeiro (dia 20) e depois em São Paulo (dia 25) — e, olha só, quase 54 anos depois, é só agora que ele finalmente começa a se despedir de vez das ruas.

Um legado maior que o telefone

Infelizmente, Chu Ming não teve uma vida longa: faleceu em São Paulo em 1997, aos 56 anos, de uma microembolia pulmonar. Mas seu trabalho foi muito além do orelhão — ela também assinou projetos residenciais no litoral paulista, especialmente em Ilhabela, onde desenvolveu um estilo próprio que batizou de "arquitetura pós-caiçara", misturando técnicas modernas com a cultura tradicional da região.

Em 2017, ela ainda ganhou uma homenagem e tanto: um Doodle do Google, no que seria seu 76º aniversário, reconhecendo seu legado como uma das grandes nomes do design urbano brasileiro.

No fim das contas...

O orelhão nunca foi só um telefone. Virou personagem de filme, símbolo de cidade, gerou gíria que a gente usa até hoje sem nem lembrar de onde veio, e carregou nas costas décadas de ligações — de pedido de socorro a papo de namorado escondido dos pais. Agora que ele tá indo embora de vez das grandes cidades, vale o momento de lembrar (e agradecer) à mulher que deu forma, jeito e alma a essa cúpula amarela que, sem a gente perceber, virou parte da identidade visual do Brasil.


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