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A Terra está girando mais rápido?

Parece papo de ficção científica, mas é fato confirmado por quem cuida do relógio do planeta: a Terra está girando mais rápido do que o normal. Não é algo que você vai sentir no dia a dia — estamos falando de frações de milissegundo — mas para cientistas, engenheiros de satélite e gente que cuida de infraestrutura digital, isso é um baita quebra-cabeça.

Só para contextualizar: o dia não dura exatamente 24h

A gente aprende que um dia tem 86.400 segundos (24h x 60min x 60s), mas isso é uma média. Na prática, a duração exata de uma rotação completa da Terra varia o tempo todo, por causa de fatores como marés, correntes de vento, o núcleo líquido do planeta e até o degelo de geleiras. Só que essas variações são tão pequenas que só conseguimos detectá-las desde que existem relógios atômicos, que medem o tempo com uma precisão absurda.

O que andou acontecendo

Desde 2020, a Terra vem batendo recordes de "dias mais curtos" da era do relógio atômico. Alguns marcos:

  • Em 29 de junho de 2022, tivemos um dia 1,59 milissegundo mais curto que o padrão.
  • Em 5 de julho de 2024, novo recorde: 1,66 milissegundo a menos — o mais curto já registrado.
  • No verão de 2025 (hemisfério norte), tivemos uma sequência de dias curtos: 9 de julho (cerca de -1,36 ms), 22 de julho (-1,34 ms) e 5 de agosto (-1,25 ms).

Ou seja: não é um evento isolado, é uma tendência que vem se firmando nos últimos anos, e que pegou os cientistas de surpresa — porque, historicamente, a rotação da Terra vem desacelerando ao longo dos séculos, não acelerando.

E 2026, como ficou?

Aqui está a parte curiosa: os dados mais recentes do IERS (o serviço internacional que monitora a rotação da Terra) mostram que 2026 está indo na contramão dos últimos anos. O dia mais curto de 2026 deve ter acontecido em 26 de julho, com apenas -0,65 milissegundo — quase o dobro de "folga" comparado ao recorde de 2025 (-1,37 ms). Ou seja, a Terra está desacelerando de novo depois da disparada recente. É um lembrete de que esse fenômeno oscila e ninguém tem 100% de certeza do porquê.

Mas por que isso afeta o horário?



Aqui entra a parte prática. O tempo que usamos no dia a dia (o UTC, Tempo Universal Coordenado) é baseado em relógios atômicos, que são extremamente estáveis. Só que a rotação real da Terra é meio "bagunçada" e varia. Para manter o relógio atômico alinhado com a posição real do planeta em relação ao Sol e às estrelas, os cientistas criaram o segundo bissexto (leap second) lá em 1972.

Sempre que a diferença entre o tempo atômico e a rotação real da Terra ficava grande demais, adicionava-se um segundo extra ao relógio mundial — isso já aconteceu 27 vezes desde 1972, sempre somando um segundo, porque historicamente a Terra vinha girando mais devagar que o esperado.

O problema é que, com a Terra acelerando, essa lógica pode se inverter. Se a tendência de dias mais curtos continuar, pela primeira vez na história será necessário um segundo bissexto negativo — ou seja, tirar um segundo do relógio, em vez de adicionar. Isso nunca foi feito, e é aí que mora o nervosismo.

Por que tirar um segundo é mais assustador do que somar

Sistemas de computador, satélites, redes bancárias, GPS e boa parte da infraestrutura digital do mundo dependem de relógios sincronizados com muita precisão. Quando um segundo é adicionado, já houve problemas — em 2012, por exemplo, essa mudança bagunçou sistemas como Reddit, Linux e até companhias aéreas. Só que subtrair um segundo é um território totalmente inexplorado: nunca foi testado em escala real, e especialistas dizem que o efeito sobre sistemas baseados em temporizadores e agendadores pode ser bem mais complicado de prever.

Por isso, estimativas atuais falam em algo como 30% a 40% de chance de precisarmos de um segundo bissexto negativo antes de 2035.

A solução: aposentar o segundo bissexto

Diante da bagunça em potencial, os órgãos internacionais que cuidam desses padrões (como a Conferência Geral de Pesos e Medidas, a CGPM) já vêm discutindo aposentar o sistema de segundo bissexto como conhecemos, permitindo uma folga maior — de até um minuto ou mais — entre o tempo atômico e a rotação real da Terra, adiando esse tipo de ajuste para décadas mais à frente.

De fato, em julho de 2026 o IERS confirmou oficialmente que não haverá segundo bissexto no fim de dezembro de 2026, dando um respiro para empresas de tecnologia ajustarem seus sistemas com calma.

Resumindo

  • Sim, a Terra está girando mais rápido do que era esperado, quebrando recordes desde 2020.
  • Isso encurta o dia em frações de milissegundo — imperceptível no dia a dia.
  • Mas pode forçar, pela primeira vez, um "segundo bissexto negativo" no relógio mundial, algo nunca testado.
  • Em 2026, porém, a tendência deu uma desacelerada, mostrando que o fenômeno é instável e ainda intriga os cientistas.
  • Para evitar dor de cabeça tecnológica, o mundo está caminhando para aposentar o sistema de segundos bissextos como conhecemos.

Nenhum dos seus compromissos vai atrasar por causa disso — mas é um daqueles casos em que um fenômeno geofísico minúsculo esconde uma bagunça gigante nos bastidores da tecnologia mundial.

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