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Mars One: o que sobrou do sonho de colonizar Marte sem volta


Em 2013, o holandês Bas Lansdorp anunciou ao mundo uma proposta que soava tirada de ficção científica: enviar humanos para viver permanentemente em Marte, sem qualquer plano de retorno à Terra. O projeto se chamava Mars One e prometia a primeira colônia humana no planeta vermelho ainda na década de 2020. Mais de 200 mil pessoas de mais de 140 países se inscreveram para a viagem só de ida. Seis anos depois, a empresa quebrou silenciosamente — e quase ninguém percebeu.


A promessa: uma colônia bancada por reality show

A ideia central da Mars One era ambiciosa em dois sentidos ao mesmo tempo: técnico e financeiro. Do lado técnico, o plano prometia usar apenas tecnologia já existente para lançar, a partir de 2022, uma série de missões — primeiro robóticas, depois cargueiros com módulos habitacionais e, por fim, tripulações de quatro astronautas a cada dois anos, começando a chegada humana em 2025 ou 2026.

Do lado financeiro, o modelo era ainda mais inusitado: em vez de depender de agências espaciais ou bilionários, a Mars One planejava bancar boa parte da missão vendendo os direitos de transmissão de um reality show que acompanharia a seleção, o treinamento e, supostamente, a própria colonização dos candidatos.

A estrutura da empresa era dividida em duas partes: a Mars One Foundation, uma fundação sem fins lucrativos sediada na Holanda que cuidaria da missão em si, e a Mars One Ventures, o braço comercial suíço responsável por captar dinheiro — inclusive com a venda do reality show.


As rachaduras foram aparecendo cedo

Praticamente desde o anúncio, cientistas e engenheiros espaciais trataram o projeto com ceticismo. Em 2014, pesquisadores de pós-graduação do MIT publicaram uma análise técnica apontando que a tecnologia proposta estava longe de madura o suficiente e que o plano exigiria muito mais dinheiro, peças de reposição e infraestrutura do que a Mars One admitia. Especialistas do setor aeroespacial chegaram a chamar a proposta de "missão suicida", dado que nenhuma tecnologia de suporte à vida de longo prazo em Marte havia sido testada, e a empresa não possuía nenhum hardware espacial próprio.

Ao longo dos anos seguintes, os sinais de que o cronograma não se sustentava foram se acumulando. Os lançamentos previstos foram empurrados repetidamente: a missão robótica inicial, planejada para 2018, foi adiada para 2022 e depois 2024, sem que a empresa desse atualizações públicas sobre o desenvolvimento. A parceria com a produtora Endemol, que faria o reality show, também não foi levada adiante como anunciado. Em 2016, a Mars One Ventures foi comprada pela financeira suíça InFin Innovative Finance — movimento que, na prática, tirou o controle financeiro das mãos dos fundadores originais.


A falência descoberta por acaso no Reddit

O desfecho chegou de um jeito quase anticlimático. Em 15 de janeiro de 2019, um tribunal suíço decretou a liquidação da Mars One Ventures AG, dissolvendo formalmente o braço comercial da empresa. Mas a companhia não fez nenhum anúncio público sobre isso. A notícia só veio à tona semanas depois, quando um usuário do Reddit encontrou o nome da empresa em uma lista de falências publicada no diário oficial de comércio de Basel, na Suíça.

Bas Lansdorp confirmou o caso à imprensa na época, afirmando que a equipe estava "trabalhando com o administrador e um investidor para encontrar uma solução". Segundo a empresa, a falência atingia apenas a Mars One Ventures — o braço que buscava lucro — e não afetaria diretamente a Mars One Foundation, a fundação sem fins lucrativos que, tecnicamente, ainda seria "a força motriz por trás da missão". Já o braço britânico do projeto, a Mars One Ventures PLC, sequer declarou falência formalmente, mas foi listado como uma empresa dormente, com menos de 20 mil libras em caixa.

Na prática, porém, o golpe foi fatal. O último grande anúncio da empresa havia sido em julho de 2018, sobre um aporte de US$ 14 milhões vindo de uma companhia chamada Phoenix Enterprises, que seria usado para reestruturar a Mars One Ventures. O investimento não foi suficiente para evitar o colapso poucos meses depois.


O que restou

Desde a falência de 2019, a Mars One nunca mais voltou a fazer qualquer anúncio relevante sobre astronautas, hardware ou cronogramas. Não houve lançamento de nenhuma missão robótica, nenhum módulo habitacional e nenhuma seleção final de tripulação — o processo de seleção de candidatos, que havia chegado a reduzir os mais de 200 mil inscritos a um grupo de 100 semifinalistas, simplesmente parou no meio do caminho, sem um desfecho.

Hoje, o projeto é tratado no setor aeroespacial como um exemplo clássico de hype sem lastro técnico ou financeiro: uma ideia que capturou a imaginação do público e da imprensa por anos, mas que nunca teve um caminho realista para sair do papel. Diferentemente de iniciativas como as missões tripuladas planejadas por agências espaciais e por empresas como a SpaceX — que, com todas as ressalvas, possuem foguetes construídos, testados e voando —, a Mars One nunca chegou a desenvolver ou comprar uma única peça de hardware espacial.

A história da Mars One também rendeu desdobramentos culturais: em 2022, o cineasta brasileiro Gabriel Martins lançou o longa "Marte Um", exibido no festival Sundance, que usa o sonho de um jovem brasileiro de participar de uma missão a Marte como pano de fundo para retratar as dificuldades de uma família da periferia de Belo Horizonte — um eco irônico de como a promessa de colonizar o planeta vermelho conseguiu, por um tempo, atravessar continentes e classes sociais antes de desmoronar como uma nota de rodapé na história da exploração espacial.


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