| Leslie Diniz Leilões |
Se você nasceu antes dos anos 2000, provavelmente lembra: a CCE era praticamente onipresente. Televisão de tubo, videocassete, som três-em-um, videogame... tinha CCE em quase toda casa brasileira. E também tinha aquele apelido carinhoso (ou nem tanto) que a marca carregava: "Começou Comprando Errado". Mas de repente, sem ninguém perceber muito bem quando, ela sumiu das prateleiras. O que rolou?
Tudo começou pequeno, importando peça
A história da CCE — sigla de Comércio de Componentes Eletrônicos — remonta a 1964, quando Isaac Sverner fundou a empresa em São Paulo com um objetivo bem modesto: importar e vender componentes eletrônicos. Nada muito glamouroso no começo.
A virada veio nos anos 80, quando a CCE deixou de ser só revendedora e passou a fabricar seus próprios produtos. E aí a coisa engrenou de verdade: modulares de som, rádios, videocassetes, televisores e até videogames compatíveis com o Atari 2600 saíam das linhas de produção da marca. O pulo do gato era o preço — sempre mais barato que a concorrência, o que abriu as portas da eletrônica pra um público que, até então, via esses produtos como artigo de luxo.
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O auge (e as piadinhas que vieram junto)
Nos anos 90, a CCE virou sinônimo de "eletrônico do povo". Estava em quase toda casa, mas também virou alvo de brincadeira — as famosas "Começou Comprando Errado" e "Conserta, Conserta Estraga" pegaram carona na fama (e na fama de qualidade nem sempre impecável) da marca. Ainda assim, ninguém pode negar: a CCE cumpriu um papel enorme em popularizar a tecnologia no Brasil, numa época em que ter uma TV ou um som em casa não era tão trivial assim.
Já nos anos 2000, a marca tentou se reinventar entrando no mercado de informática, com a divisão CCE Info vendendo notebooks e computadores baratos rodando Windows ou Linux.
A entrada (e saída) da Lenovo
O capítulo mais dramático da história vem em 2012, quando a gigante chinesa Lenovo comprou a CCE por cerca de R$ 300 milhões, na esperança de ganhar espaço no mercado brasileiro usando o nome já conhecido da marca nacional. Parecia um bom negócio no papel.
Só que não deu certo. A concorrência pesada e a explosão do mercado de smartphones e tablets bagunçaram os planos, e os resultados ficaram bem abaixo do esperado. Em 2015, a Lenovo devolveu o controle da CCE de volta pra família Sverner — inclusive, segundo relatos, sem sequer quitar a última parcela do acordo de compra.
O fim silencioso
Mesmo de volta às mãos dos donos originais, a CCE não conseguiu se recuperar. Ainda em 2015, a empresa parou de lançar televisores próprios — encerrando de vez a linha de produto que mais a tornou famosa. Pouco depois, em 2016, as atividades foram efetivamente suspensas.
Hoje, a marca não tem nem site oficial ativo. O que ainda circula por aí — às vezes em bazares, brechós ou anúncios de usados — é estoque antigo ou produto de segunda mão. Não houve um anúncio bombástico de falência, nenhuma coletiva de imprensa dramática. A CCE simplesmente foi sumindo aos poucos, até que um dia todo mundo percebeu que fazia tempo que não via nada da marca nas lojas.
Um pedaço da nossa história tecnológica
No fim das contas, a trajetória da CCE resume bem um pedaço da indústria eletrônica brasileira: nasceu pequena, cresceu com produtos acessíveis, virou parte do imaginário popular (piadas incluídas) e, quando o mercado global apertou o cerco, não teve fôlego pra competir. Fica a lembrança — e, pra muita gente, aquela TV de tubo lá na casa da vó que nunca quis parar de funcionar.