A Meta entrou nesta semana num dos processos mais pesados da sua história — e dessa vez não é sobre concorrência nem sobre compra de concorrentes. É sobre crianças e adolescentes, e sobre até onde o Instagram e o Facebook foram para prender a atenção deles.
De onde veio esse processo
A história começou em 2023, quando cerca de 30 estados americanos — Califórnia, Nova York, Colorado, Kentucky e Nova Jersey entre eles — entraram com uma ação alegando que a Meta violou leis federais e estaduais de proteção à privacidade infantil. O argumento central é duro: os procuradores dizem que a empresa moldou deliberadamente o Instagram e o Facebook para viciar menores de idade, sabendo dos riscos, e usou isso como estratégia de crescimento.
O julgamento com júri começou essa semana em um tribunal federal de Oakland, na Califórnia, e a expectativa é que se estenda por semanas. No comando do caso está a juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers — a mesma que conduziu a disputa judicial entre Elon Musk e Sam Altman e que carrega quase duas décadas de reputação como magistrada incisiva.
O que está em jogo
Os números por trás do processo impressionam: os estados pedem mais de US$ 1 trilhão em indenizações, um valor que se aproxima da própria capitalização de mercado da Meta. Mas o dinheiro talvez seja a parte menos disruptiva do pedido. O que realmente pode mexer com a experiência de quem usa as plataformas são as mudanças exigidas na arquitetura delas:
- fim da contagem pública de curtidas para menores de 18 anos
- limitação ou fim da rolagem infinita de conteúdo
- restrição à reprodução automática de vídeos
- remoção de filtros de imagem que alteram a aparência
- criação de um sistema obrigatório de verificação parental
- mudanças nos algoritmos de recomendação e nos horários de notificações push
Ou seja, praticamente os pilares que sustentam o "vício" de rolar o feed por horas.
Por que a Meta já está em maus lençóis
O que deixa esse julgamento ainda mais tenso é que a empresa já perdeu uma rodada parecida. No Novo México, o juiz Bryan Biedscheid condenou a Meta a pagar US$ 942 milhões e determinou uma série de mudanças nas plataformas voltadas a usuários menores de idade — incluindo o fim da contagem de curtidas para adolescentes, proibição de troca de nudez entre menores pela plataforma e limites de horário para notificações. Segundo o próprio juiz, o modo como as redes da Meta operaram por mais de uma década contribuiu para uma verdadeira crise de saúde mental entre jovens.
Durante o processo, os advogados dos estados apresentaram pesquisas internas da própria Meta apontando que métricas como a contagem de curtidas alimentam a chamada "comparação social" — aquele hábito de medir a própria autoestima com base na vida (editada) dos outros. E, segundo esses mesmos documentos internos, isso estaria ligado a mais solidão, pior percepção da própria imagem corporal e humor mais negativo entre adolescentes.
E a Meta, o que diz?
A empresa nega tudo com veemência. Em nota, uma porta-voz afirmou que a Meta discorda das acusações e está confiante de que as provas vão mostrar seu compromisso de longa data com o bem-estar dos jovens. A companhia também destaca já ter entregado mais de 2 milhões de documentos ao longo do processo — um sinal de que a batalha jurídica está longe de ser simples.
O que isso significa lá na frente
Se os estados vencerem, a Meta pode ser obrigada a redesenhar features que hoje são o coração do Instagram e do Facebook — não só para adolescentes, mas potencialmente reformulando como as plataformas funcionam de forma mais ampla. Curtidas, scroll infinito, autoplay, filtros: tudo isso pode nunca mais ser igual para o público mais jovem, o que também mudaria a lógica de engajamento (e de receita publicitária) que sustenta o modelo de negócio da empresa.
Por outro lado, uma vitória da Meta manteria intacto o design atual das plataformas e serviria como um respiro importante numa fase em que a empresa já enfrenta múltiplos processos parecidos em diferentes frentes nos Estados Unidos.